Tradição da Consoada: Raízes Medievais e Etimologia Holandesa do Bacalhau
Editado por: Vera Mo
A noite de 24 de dezembro em Portugal é ritualisticamente marcada pela presença do bacalhau na mesa da Consoada, uma prática profundamente enraizada na história religiosa e social do país. Esta tradição tem as suas raízes na Idade Média, um período em que o calendário cristão impunha o jejum de carne antes de celebrações importantes como o Natal e a Páscoa, levando os fiéis a recorrerem a fontes alternativas de proteína. O bacalhau salgado e seco ascendeu a um estatuto central devido à sua longa conservação e custo acessível, superando os desafios logísticos de transporte e armazenamento antes da refrigeração moderna.
Embora a sua presença seja hoje nacional, a popularização do consumo de bacalhau na Consoada iniciou-se notavelmente na região Norte de Portugal. Referências literárias antigas, como as do livro 'Natal Minhoto' de Ramalho Ortigão, datado de 1882, descrevem preparações que se assemelhavam ao 'Bacalhau à Provençal'. Em contraste, outras áreas do território, como o Alentejo ou Funchal, mantinham costumes onde a quebra do jejum após a Missa do Galo era celebrada com pratos de carne ou com 'canja', um caldo de galinha. A consolidação do bacalhau como ícone gastronómico nacional ocorreu de forma mais significativa após a Segunda Guerra Mundial, sob o regime do Estado Novo, que via neste alimento um reflexo da sobriedade popular e chegou a regulamentar o seu fornecimento.
No campo da linguística, o especialista Marco Neves apresentou uma perspetiva esclarecedora sobre a origem do termo 'bacalhau', desmistificando a associação popular com a língua basca, onde existe o termo 'bakailao'. Neves argumenta que a evidência concreta não sustenta essa ligação direta, apesar da relevância histórica dos bascos na atividade de pesca do peixe. A análise do linguista aponta para uma provável gênese no Norte da Europa, especificamente no idioma holandês, com registos da palavra datando do século XII. Este vocábulo teria migrado linguisticamente para sul, chegando à Península Ibérica entre os séculos XVI e XVII, sendo que o primeiro registo escrito em basco só surge no século XVII. A conclusão de Neves sublinha que a tradição, embora profundamente portuguesa, não exige uma etimologia autóctone para a palavra 'bacalhau'.
Atualmente, o consumo anual médio por habitante em Portugal mantém-se elevado, rondando os 15 quilogramas, com o Natal a concentrar aproximadamente 30% desse total. A indústria do bacalhau, que emprega cerca de 2.500 pessoas no país, enfrenta pressões de preço para 2026 devido à redução de quotas de pesca no Mar de Barents. As preparações regionais continuam a evidenciar a versatilidade do peixe, com o 'Bacalhau à Minhota', por exemplo, a envolver postas fritas em farinha, servidas sobre uma cama de cebolada e acompanhadas por batatas fritas em rodelas. Esta diversidade reflete a adaptação de um produto, pescado em águas frias distantes como as da Noruega, Islândia e Rússia, que se estabeleceu como o pilar da mesa festiva lusa, simbolizando a união de história, religião e identidade cultural.
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