Café: Novo Olhar Científico Revela Aliado Cardiovascular e Digestivo

Editado por: Olga Samsonova

A perceção sobre o consumo de café está a sofrer uma profunda reavaliação no campo da saúde, impulsionada por novas evidências científicas. O epidemiologista Tim Spector, uma voz proeminente na investigação da microbiota intestinal, sublinha o papel da bebida como um suporte significativo tanto para o sistema digestivo quanto para o cardiovascular, um ponto de vista que contrasta com o ceticismo médico que prevalecia, por exemplo, na década de 1980, quando Spector estudava medicina. Estudos recentes, envolvendo grandes coortes populacionais, indicam que a ingestão regular de café está correlacionada com uma diminuição de cerca de 15% no risco de desenvolvimento de doenças cardiovasculares. Este efeito protetor manifesta-se tanto em consumidores de café com cafeína quanto naqueles que optam pela versão descafeinada, sugerindo que os benefícios transcendem a mera ação estimulante da cafeína.

O mecanismo subjacente a estes benefícios reside na composição química singular do café, que o posiciona como um promotor da saúde intestinal. A bebida é uma fonte notável de polifenóis e fibra solúvel, atuando como prebióticos que nutrem seletivamente a comunidade microbiana do intestino. Pesquisas demonstram que os consumidores habituais de café exibem uma maior abundância e diversidade da sua microbiota, um indicador chave de um ecossistema digestivo robusto. Especificamente, a presença da bactéria benéfica Lawsonibacter asaccharolyticus é fortemente associada ao consumo de café, com alguns estudos indicando níveis até oito vezes superiores em grandes consumidores em comparação com não-consumidores. Esta bactéria, identificada pela primeira vez em 2018, é produtora de butirato, um ácido graxo de cadeia curta essencial para nutrir as células do cólon e fortalecer a barreira intestinal.

Os compostos bioativos do café, como os polifenóis — entre os quais se destaca o ácido clorogênico —, conferem-lhe propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias. Estes fitoquímicos ajudam a combater o estresse oxidativo e a mitigar a inflamação sistémica, um fator de risco para diversas patologias crónicas. Uma análise comparativa de alimentos revelou que, entre mais de 150 itens dietéticos avaliados, o café demonstrou a maior correlação com a composição da microbiota intestinal. Adicionalmente, o teor de fibra solúvel na bebida é substancial; estima-se que uma chávena de café filtrado possa fornecer cerca de 1,5 gramas de fibra solúvel, um teor comparável ao encontrado numa tangerina.

Em termos de recomendação prática, Tim Spector sugere uma ingestão diária que se situa entre duas a quatro chávenas de café. Contudo, o epidemiologista emite um alerta crucial: maximizar os benefícios exige moderação na adição de açúcares e a evitação do consumo concomitante com alimentos ultraprocessados. A qualidade do grão e o método de processamento também influenciam o perfil químico, sendo que a bebida escura, por exemplo, demonstrou conter os maiores teores de polifenóis e ácido clorogênico em certas análises de Coffea arabica da região Sul de Minas Gerais. Esta reinterpretação do café, de suspeito a aliado metabólico, ilustra uma mudança paradigmática na nutrição moderna, onde a complexidade dos alimentos integrais é cada vez mais reconhecida.

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Fontes

  • O Globo

  • ZOE

  • ELTIEMPO.com

  • Mundo Deportivo

  • Trendencias

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