Pesquisas recentes revelaram uma notável capacidade de manutenção visual no Tubarão-da-Groenlândia (*Somniosus microcephalus*), o vertebrado com a maior longevidade conhecida, que pode viver até cerca de 400 anos. Este achado, detalhado na publicação Nature Communications, confronta a crença estabelecida de que esses habitantes das profundezas marinhas seriam praticamente cegos devido à sua idade extrema e à incidência comum de parasitas oculares. A investigação concentrou-se na análise de espécimes oculares de tubarões estimados em mais de um século de vida, coletados em expedições científicas realizadas entre 2020 e 2024, em colaboração com a Universidade de Copenhague na Estação Ártica da Ilha Disko, na Groenlândia.
Os dados moleculares e histológicos obtidos desses olhos centenários demonstraram uma integridade estrutural surpreendente, sem vestígios de degeneração retiniana ou morte celular, características tipicamente associadas ao avanço da idade em outros vertebrados. A estrutura visual do tubarão é otimizada para o seu ambiente abissal, apresentando uma retina inteiramente dominada por bastonetes, células especializadas em captar a tênue luz azul que penetra nas profundezas do oceano. A proteína rodopsina, essencial para a visão em condições de pouca luz, está precisamente calibrada para o comprimento de onda de 458 nanômetros, maximizando a captação luminosa disponível.
A análise genética confirmou a atividade contínua dos genes para visão em bastonetes, enquanto os genes relacionados à visão em cones, importantes para cores e luz intensa, são escassos ou inoperantes. Os cientistas atribuem essa preservação notável a mecanismos de reparo de DNA excepcionalmente robustos, que conseguem manter a saúde da retina ao longo de séculos de existência. Estudos genômicos, liderados por pesquisadores como Steve Hoffmann do Instituto Leibniz sobre o Envelhecimento, revelaram que o genoma do tubarão-da-Groenlândia é aproximadamente duas vezes maior que o humano, contendo cerca de 6,5 bilhões de pares de bases de DNA, o maior já sequenciado entre os tubarões.
Uma característica intrigante é a alta proporção de elementos transponíveis, ou “genes saltadores”, que, em vez de causar instabilidade, parecem ter sido cooptados evolutivamente para potencializar a capacidade de reparo do DNA. A fisiologista Dorota Skowronska-Krawczyk, da Universidade da Califórnia, notou inicialmente o movimento ocular dos animais em resposta à luz, o que motivou a investigação para refutar a hipótese de cegueira funcional. A longevidade extrema da espécie, que só atinge a maturidade sexual após os 100 anos, torna-o um objeto de estudo raro sobre a biologia do envelhecimento em vertebrados.
Esta descoberta transcende a ictiologia marinha, oferecendo um modelo biológico singular para a ciência biomédica. A compreensão de como o *Somniosus microcephalus* evita o desgaste celular e mantém a integridade retiniana por tanto tempo pode fornecer pistas cruciais para o desenvolvimento de futuras intervenções terapêuticas contra patologias oculares humanas relacionadas à idade, como o glaucoma e a degeneração macular. A manutenção de um sistema sensorial funcional por séculos no ambiente hostil do Ártico e do Atlântico Norte sublinha uma adaptação evolutiva de resiliência celular.




