
No dia 15 de março, o Cazaquistão realizou um referendo sobre o rascunho de uma nova constituição.
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Autor: Aleksandr Lytviak

No dia 15 de março, o Cazaquistão realizou um referendo sobre o rascunho de uma nova constituição.
No domingo, 15 de março, o Cazaquistão realiza um referendo crucial sobre o projeto de uma nova Constituição. Esta votação tem o potencial de transformar radicalmente o sistema político do país, concentrando ainda mais autoridade nas mãos do presidente Kassym-Jomart Tokayev. O pleito ocorre em um cenário marcado por incertezas econômicas, uma oposição fragilizada e questionamentos crescentes sobre a direção real do prometido "Novo Cazaquistão".
Oficialmente, as autoridades convocam os cidadãos a apoiar a nova Lei Fundamental, cujo texto foi publicado em 12 de fevereiro, após o decreto presidencial que convocou a consulta popular. Com a votação agendada para 15 de março, a Comissão Central de Referendo estabeleceu que os resultados oficiais devem ser divulgados até 21 de março. Para que a reforma seja aprovada, é necessário o apoio de mais de metade dos participantes que comparecerem às urnas.
Contudo, o teor da reforma ultrapassa meros ajustes jurídicos. Segundo informações da AP, o projeto prevê a transição de um parlamento bicameral para um modelo unicameral, a reintrodução do cargo de vice-presidente e a criação de um novo Conselho Popular. Este último órgão terá o poder de iniciativa legislativa e a capacidade de convocar referendos, levantando dúvidas se o sistema se tornará mais eficiente ou apenas menos competitivo.
Os críticos da proposta argumentam que não se trata de uma modernização democrática, mas de uma nova fase de consolidação de poder. Analistas citados pela AP observam riscos de uma expansão ainda maior das prerrogativas presidenciais, possivelmente contornando as limitações de mandato após 2029. Para uma nação que, após os tumultos de janeiro de 2022, prometeu renovação política e um modelo de gestão equilibrado, a mudança parece um retrocesso para uma estrutura mais rígida e centralizada.
O significado político do evento é amplificado pela ausência de uma resistência pública organizada. A oposição no Cazaquistão permanece debilitada, e não se observa uma campanha competitiva robusta contra o projeto constitucional. Nesse contexto, o plebiscito assemelha-se menos a um debate entre programas políticos distintos e mais a um mecanismo formal para legitimar o curso político já estabelecido pela liderança atual.
Há também uma dimensão simbólica relevante na proposta. Já se discute no país a alteração da data do Dia da Constituição: caso o novo texto seja aprovado, a celebração passaria de 30 de agosto (referente à Constituição de 1995) para o dia 15 de março. Essa mudança reforça a ideia de que o governo busca um reinício completo da estrutura estatal, e não apenas emendas pontuais.
De acordo com relatos do portal Tengrinews, as disposições transitórias do projeto indicam que o novo texto constitucional poderá entrar em vigor plenamente a partir de 1 de julho de 2026. Este cronograma sublinha a ambição de refundar o arcabouço jurídico do Estado cazaque sob uma nova ótica de governança, estabelecendo um novo marco temporal para a administração pública.
Para a comunidade internacional, os desdobramentos no Cazaquistão possuem grande relevância. O país detém a maior economia da Ásia Central e é um exportador estratégico de petróleo, urânio e metais. Além disso, é um dos poucos atores pós-soviéticos que tenta equilibrar influências entre a Rússia, a China e o Ocidente, mantendo sua própria autonomia. O novo desenho constitucional serve como um termômetro da estabilidade que o Estado busca em tempos de pressão geopolítica.
Em última análise, o referendo de hoje representa muito mais do que a escolha de um novo texto legal. É um teste decisivo para determinar se o Cazaquistão evoluirá para um sistema político mais complexo e multifacetado ou se, pelo contrário, consolidará uma nova versão da antiga vertical de poder, agora sob uma roupagem constitucional renovada. O resultado moldará o futuro da nação e sua posição no cenário global nos próximos anos.
orda.kz
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